
Uma reflexão sobre experiência, cooperação e a formação cotidiana de professoras e professores.
Por: Marcela Oswald da Rosa
Há um dia em que recebemos um diploma. Há outro em que atravessamos o portão da escola pela primeira vez, levando um planejamento, alguns conhecimentos, muitas intenções e perguntas que nem sempre aparecem escritas. Mas em qual deles nos tornamos professoras e professores?
Talvez em nenhum. Ou talvez em todos, um pouco a cada dia.
Tornamo-nos professoras e professores quando aquilo que planejamos não basta. Quando uma explicação cuidadosamente preparada não alcança alguém da turma e precisamos procurar outro caminho. Quando percebemos que conhecer o conteúdo não significa, necessariamente, saber como ensiná-lo. Quando uma pergunta inesperada desloca uma certeza ou um silêncio exige outra forma de escutar. Quando entendemos que uma turma não é uma plateia e que uma aula nunca depende apenas de quem está diante dela. E também quando uma conversa com outra pessoa da equipe docente abre um caminho que talvez não enxergaríamos sem ela.
Entramos para ensinar. Mas quase nunca saímos exatamente como entramos.
Ao afirmar que não nascemos prontos, Mário Sérgio Cortella nos lembra que vamos nos fazendo ao longo da vida. Com quem ensina não poderia ser diferente. Ninguém entra na escola com a formação concluída. É também dentro dela que continuamos em formação.
Costumamos falar sobre o que professoras e professores ensinam, sobre sua responsabilidade na formação de estudantes e sobre as marcas que deixam em suas vidas. Neste Dia das Professoras e dos Professores, proponho inverter o olhar: o que estudantes, colegas e a própria experiência docente ensinam a quem ensina?
Em outras palavras: o que a escola ensina a quem ensina?
Existe uma expectativa silenciosa em torno da docência: a de que cada docente chegue com todas as respostas. Capaz de ensinar, incluir, avaliar, resolver conflitos, compreender comportamentos, conversar com as famílias, acompanhar mudanças e responder às situações que ninguém havia previsto. De preferência, sem hesitar.
Mas quem não pode hesitar também não pode aprender. E quem deixou de aprender ainda consegue ensinar?
A formação docente não termina quando recebemos um diploma, concluímos um curso ou assumimos uma turma. Esses momentos são importantes, mas nenhum deles encerra a formação de quem ensina.
A docência continua sendo aprendida no encontro entre estudo, prática, reflexão e convivência. A escola não é apenas um lugar onde se trabalha. Ela também é um território que vai sendo construído dentro de quem ensina. Permanecem as perguntas que nunca foram esquecidas; estudantes que modificaram maneiras de ensinar; situações que exigiram a revisão de julgamentos; projetos que despertaram novas possibilidades; erros que se transformaram em aprendizagem; encontros com colegas que alteraram práticas.
A escola forma quem ensina quando coloca diferentes profissionais diante de um mesmo problema e mostra que nenhuma resposta individual consegue compreender tudo.
Depois de anos entre a sala de aula, a formação de professoras e professores, a gestão escolar e as Cooperativas Escolares, tenho compreendido que ensinar é uma profissão sustentada pelo estudo, pela responsabilidade pedagógica e pela capacidade de rever a própria prática. Quem ensina precisa conhecer aquilo que ensina e responder pelas escolhas que faz, sem transformar o que sabe numa certeza fechada.
A rotina escolar é cheia de acontecimentos. Nem todos, porém, se transformam em aprendizagem. Para Dewey, uma experiência se torna educativa quando produz reflexão, estabelece relações e abre possibilidades para novas experiências, portanto, quando ajuda a compreender o presente e muda a maneira como seguimos adiante.
Uma atividade que não deu certo pode terminar apenas em frustração. Também pode provocar perguntas importantes: o que aconteceu, o que eu não percebi, o que esta turma está dizendo e o que precisa ser reorganizado? O erro ensina quando deixa de ser apenas um resultado indesejado e passa a ser examinado.
O mesmo vale para os conflitos. A escola pode tratá-los como interrupções que precisam ser encerradas rapidamente. Pode também observá-los como parte das relações humanas e criar condições para que estudantes e profissionais aprendam a conversar, assumir responsabilidades e construir outros combinados.
Para que isso aconteça, professoras e professores precisam de tempo para pensar sobre a própria prática. Sem reflexão, os dias se acumulam e podem virar somente cansaço. Quando o vivido é examinado, o cotidiano produz conhecimento pedagógico.
Mas examinar o vivido exige mais do que tempo. Exige curiosidade. É preciso continuar disposto a perguntar por que uma atividade não funcionou, o que um conflito revela e o que ainda não compreendemos sobre aquela turma.
É nesse ponto que Rubem Alves nos ajuda a ampliar a reflexão. A educação também passa pelo desejo de conhecer. Quem ensina apresenta palavras, ideias e caminhos, mas precisa conservar a própria curiosidade.
Falamos muito sobre professoras e professores que despertam, em cada estudante, o desejo de aprender. Falamos menos sobre as condições de que também precisam para continuar desejando conhecer. Não necessariamente porque lhes falta compromisso com a educação. Às vezes, porque passaram tanto tempo respondendo a urgências que já não encontram espaço para uma pergunta própria.
Quem cuida da curiosidade de quem tem a tarefa de despertá-la?
O diploma marca o início formal da profissão. A experiência refletida, o estudo e os encontros continuam formando professoras e professores ao longo de toda a vida. Uma dessas aprendizagens talvez seja compreender que a autoria da aula não precisa ser individual.
Célestin Freinet construiu uma pedagogia ligada à vida, ao trabalho, à livre expressão e à cooperação. Em suas práticas, estudantes escreviam textos livres, produziam jornais, realizavam pesquisas e participavam da organização da vida coletiva da turma. Não eram colocados apenas no lugar de quem recebe aquilo que havia sido preparado por quem ensinava. Também escreviam, investigavam, decidiam e assumiam responsabilidades pelo trabalho comum.
Quando a turma ganha autoria, a docência não perde importância. A tarefa de quem ensina se torna mais cuidadosa. É preciso organizar tempos e espaços, aproximar os conhecimentos, acompanhar os processos e garantir que a participação não seja apenas uma palavra bonita no planejamento. Quem ensina deixa de ser a única voz da aula, mas precisa ajudar cada estudante a encontrar a própria voz. Deixa de oferecer todas as respostas, mas precisa reformular perguntas melhores. Deixa de concentrar a autoria para organizar uma experiência construída por muitas mãos.
Participação se aprende participando. Cooperação se aprende quando há algo verdadeiro para construir em conjunto. Isso envolve decisões, responsabilidades, desacordos e compromisso com aquilo que foi definido coletivamente.
Nesse processo, quem ensina também aprende. Precisa decidir quando intervir, quando perguntar e quando permitir que a turma encontre seus próprios caminhos.
Há estudantes que me ensinaram justamente quando eu acreditava estar ali apenas para lhes ensinar. Ouvi de estudantes que queriam me orgulhar. Também me disseram que foi em nossas aulas que despertaram para a leitura, começaram a se reconhecer como escritoras e escritores ou, simplesmente, sentiram que eram vistos e vistas. Não guardo essas falas como confirmação de que acertei sempre. Guardo porque elas modificaram meu modo de compreender o que uma aula pode produzir. Nem sempre aquilo que permanece é o conteúdo que estava no planejamento. Às vezes, é a descoberta de uma voz, o gosto pela leitura ou a experiência de ter sua presença realmente percebida.
As experiências com estudantes também me obrigaram a buscar outras palavras, reorganizar caminhos e abandonar algumas certezas. Com elas, aprendi que uma sala de aula nunca cabe inteiramente em um planejamento.
Paulo Freire nos ajuda a nomear esse movimento ao aproximar docência e discência. A dodiscência reconhece que não existe ensino sem aprendizagem. Quem ensina não deixa de ter uma responsabilidade diferente daquela assumida por quem aprende, mas também não atravessa o ato de ensinar sem aprender.
Essa compreensão aparece também quando Freire relaciona a leitura da palavra à leitura do mundo. Ensinar alguém a ler não é somente aproximá-lo das letras ou dos livros. É criar condições para que se possa compreender a realidade, reconhecer-se nela e encontrar formas de dizer a própria palavra.
Ainda representamos a docência como uma profissão solitária: uma professora ou um professor diante de uma turma, responsável por encontrar respostas para tudo o que acontece ali. A imagem é incompleta. Mesmo quando a porta da sala se fecha, o trabalho continua ligado a uma rede de pessoas. Nenhuma professora e nenhum professor deveriam construir de maneira isolada todas as respostas para problemas que são coletivos.
Aprendemos com quem compartilha uma atividade, com a supervisão que ajuda a enxergar uma situação por outro ângulo, com a gestão que escuta antes de decidir e com colegas que fazem perguntas incômodas, mas necessárias. Há conhecimentos que nascem do estudo individual. Outros aparecem quando colocamos nossas dúvidas em comum na mesa.
A docência também é feita de escolhas. Escutar ou encerrar rapidamente uma conversa. Repetir uma prática conhecida ou admitir que aquela turma pede outro caminho. Usar a autoridade para controlar ou para criar condições de participação. Muitas dessas decisões não aparecem no planejamento, mas revelam a educação em que acreditamos.
Isso nos leva a uma pergunta que não deveria ser dirigida somente a professoras e professores: que docência estamos oferecendo a quem escolheu ensinar? Uma rotina de urgências pode cobrar criatividade enquanto retira o tempo necessário para pensar. Uma rede pode defender inovação e não escutar as pessoas que conhecem diariamente a escola.
Por isso, não faz sentido esperar que as turmas cooperem em escolas que mantêm professoras e professores isolados. A cooperação precisa estar presente na vida de quem trabalha na escola, nas reuniões, nos planejamentos, na formação continuada e nas decisões que atingem o trabalho coletivo.
Um coletivo profissional não é um grupo em que todas as pessoas concordam. É um espaço de escuta, planejamento compartilhado e confronto respeitoso de ideias, no qual pedir ajuda ou dizer “não sei” não seja entendido como incompetência.
Também por isso escolhi fazer parte de uma cooperativa de educadoras e educadores. Na Greta Coop, a construção coletiva não é somente um assunto que ensinamos. Ela orienta a forma como trabalhamos, partilhamos conhecimentos e criamos propostas. Essa experiência reforça algo que a escola já me ensinava: educadoras e educadores também precisam de espaços nos quais possam aprender com outras pessoas da educação.
A escola que desejamos para crianças e jovens também precisa existir para quem trabalha nela. Se queremos jovens curiosos, professoras e professores precisam manter viva a própria curiosidade. Se defendemos a participação, suas vozes precisam ser consideradas. Se falamos em cooperação, é necessário criar tempo e condições para que ela aconteça. Se desejamos profissionais que escutem, precisamos construir instituições capazes de escutar essas pessoas.
Celebrar é reconhecer que professoras e professores também aprendem
O Dia das Professoras e dos Professores costuma chegar acompanhado de agradecimentos. Eles são importantes. Há muito trabalho, estudo e responsabilidade por trás de cada aula. Ainda assim, celebrar a docência pede mais do que elogiar a dedicação de quem ensina.
É preciso cuidar das condições que permitem a professoras e professores continuar aprendendo. Isso inclui formação conectada à realidade, tempo para estudar e planejar, abertura para compartilhar dúvidas e participação nas decisões sobre o próprio trabalho.
Então, o que a escola ensina a quem ensina? Ensina que nenhum planejamento prevê completamente um encontro. Que conhecer muito não elimina a necessidade de perguntar. Que o erro pode abrir outro caminho quando há disposição para compreendê-lo. E que uma tarefa coletiva não deveria ser sustentada na solidão.
E talvez seja isso que a escola nos ensine todos os dias: quem ensina não apenas deixa marcas. Também se deixa afetar pelos encontros que a educação oferece.
Neste Dia das Professoras e dos Professores, celebrar quem ensina é reconhecer também sua condição de aprendiz.
Porque professoras e professores entram na escola para ensinar. Mas é a disponibilidade para continuar aprendendo que mantém viva a docência.
Referências
ALVES, Rubem. A alegria de ensinar. Campinas: Papirus, 2000.
CORTELLA, Mário Sérgio. Não nascemos prontos! Petrópolis: Vozes, 2006.
DEWEY, John. Experiência e educação. Petrópolis: Vozes, 2010.
FREINET, Célestin. Pedagogia do bom senso. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1982.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
