A educação é um dos princípios que remetem à origem das cooperativas. A Sociedade Equitativa dos Pioneiros de Rochdale é conhecida como a primeira cooperativa da história, por sua contribuição ao sistematizar os princípios e os valores do cooperativismo. Foi constituída em 1844, na Inglaterra, em um contexto de avanço do capitalismo e da Revolução Industrial, de fome e pobreza, quando operários se uniram em busca de melhores condições de vida. A cooperativa nasceu para confrontar o capitalismo e, para isso, uma das estratégias foi a educação de seus associados, a fim de disseminarem a doutrina do cooperativismo (Pinho, 2004).
Identidade Cooperativista
De acordo com a Aliança Cooperativa Internacional (ACI)3, o cooperativismo tem como base os valores da autorresponsabilidade, da solidariedade, da igualdade, da equidade, da justiça e da solidariedade. Esses valores devem orientar as cooperativas, em consonância com princípios que expressam a prática, que são: adesão livre e voluntária; gestão democrática; autonomia e independência; participação econômica dos membros; educação, formação e informação; intercooperação; e interesse pela comunidade (Sistema OCB, 2024).
Essa conjuntura de valores e princípios caracteriza as cooperativas e as diferencia de outros modelos de empreendimentos. As cooperativas, como fruto do cooperativismo, assumem o compromisso com as pessoas, e não com o capital. Assim, é necessária a ação educativa para desenvolver o conhecimento sobre a doutrina cooperativista e garantir a sustentabilidade das cooperativas a partir do equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e o social (Schneider, 2019).
O desafio do desconhecimento
Compreende-se que um dos problemas relativos ao diferencial das cooperativas é o próprio entendimento sobre o cooperativismo, expresso em seus valores e princípios enquanto sistema. Esse problema, que se traduz na dificuldade de se compreender o cooperativismo como modelo de organização social e econômico organizado por meio de cooperativas, que colocam em prática um modelo de negócio centrado nas pessoas. É pauta emergente o trabalho educacional para compreendermos as premissas da doutrina cooperativista.
Segundo o Sistema OCB (Anuário Coop 2025), existem cerca de 4.380 cooperativas no Brasil empregando mais de 578 mil pessoas e atendendo a mais de 25 milhões de cooperados. No entanto, nem todo cooperado é um cooperativista. Muitas vezes escolhemos uma cooperativa para realizarmos as nossas transações financeiras, adquirir produtos de qualidade, até mesmo matricularmos os nossos filhos, sem entendermos o modelo de negócio. Este é o desafio presente para sustentarmos o crescimento do cooperativismo, educarmos os cooperados para tornarem-se cooperativistas.
Educação Cooperativista
O cooperativismo nasce de um processo educacional não formal, orientado para desenvolver a consciência política da classe trabalhadora, buscando, assim, encontrar práticas sociais capazes de promover o bem-estar coletivo por meio do desenvolvimento econômico. Salatino (2022, p. 30) afirma que “a cooperação empregada no cooperativismo adota uma base teórica que constituirá a prática da cooperativa”. Já de acordo com Schneider (2019, p. 8), é preciso que se conheça melhor a história do cooperativismo para compreender-se sua função político-social na construção de uma sociedade mais “solidária, democrática, participativa, justa e autônoma”.
Segundo Pinho (2004, p. 259), em 1844, na Inglaterra, foi criada a primeira cooperativa singular de consumo, conhecida como “os Pioneiros de Rochdale”. Essa cooperativa era constituída por 28 trabalhadores, que procuravam obter melhores condições de vida diante da precária situação econômica e social agravada pelo avanço da revolução industrial. Para a autora, a relevância dos Pioneiros de Rochdale está na sistematização das normas e dos princípios que, até hoje, influenciam as cooperativas. De acordo com Salatino (2022): O cooperativismo é o próprio conjunto de normas, princípios filosóficos estabelecidos, a isso chamamos de doutrina. Como movimento social tem por objetivo atuar mediante associações com fins econômicos, a elas dá-se o nome de
cooperativas e por meio delas, deseja-se corrigir ou transformar a realidade social (Salatino, 2022, p. 30).
Para promover e fortalecer o cooperativismo em todo o mundo, foi criada a Aliança Cooperativa Internacional (ACI), em 1895. A ACI serve como uma voz global para o movimento cooperativo, representando 3 milhões de cooperativas e 1 bilhão de cooperados em todo o mundo (ACI, [2024]). Conforme é possível ler no website da instituição:
A cooperativa é uma associação autônoma de pessoas, unidas voluntariamente, para atender suas necessidades e aspirações econômicas, sociais e culturais comuns, por meio de uma empresa coletiva e democraticamente controlada (ACI, [2024]).
Para Schneider (2019) e Pinho (2004), as cooperativas são identificadas por valores ou características próprias, oriundas dos Pioneiros de Rochdale, fixadas pela ACI e incorporadas à legislação de vários países, incluindo o Brasil. Em 1995, a ACI definiu os seguintes valores: autoajuda, responsabilidade própria, democracia, igualdade, equidade e solidariedade (Schneider, 2019, p. 166). Esses valores distinguem as bases do cooperativismo como doutrina, orientando e reforçando os princípios que devem guiar as práticas das cooperativas, também referenciados pela ACI ([2024]) e descritos por Pinho (2004):
- 1. adesão voluntária e livre – as cooperativas são organizações abertas a
participação de todos, sem discriminações de gênero, etnia, classe social,
opção política ou religiosa;
2. gestão democrática – as cooperativas são organizações democráticas
controladas pelos cooperados (com direito a um voto, independente no
número de cotas)
3. participação econômica dos membros – ou contribuição dos cooperados
para o capital das cooperativas, sendo este controlado de acordo com
decisão tomada em assembleia geral;
4. autonomia e independência – a cooperativa é uma empresa autônoma
controlada pelos cooperados, que são os seus donos;
5. educação, formação e informação dos associados e do público em geral
sobre as vantagens do cooperativismo;
6. intercooperação – as cooperativas devem manter intercâmbio entre si, em
nível local, regional, nacional e internacional; - 7. preocupação com a comunidade – as cooperativas trabalham para o bem-
estar da comunidade, através de projetos aprovados por seus membros
Ainda de acordo com Pinho (2004, p. 127), os princípios expressam o compromisso das cooperativas com seus cooperados e com as comunidades e contribuem para gerar empregos, melhorar a qualidade de vida e promover a cidadania e os valores humanos, “atuando como agentes de mudança humana, econômica e social”. Desse modo, pode-se entender que as cooperativas são o instrumento de ação do cooperativismo, doutrina que visa à transformação social a partir da mudança do meio econômico-social em que está inserida.
Educação, formação e informação – 5o princípio
Para que esses valores e princípios sejam disseminados, faz-se necessária uma ação educativa continuada. Pinho (2004, p. 177) afirma que a educação cooperativa é cláusula pétrea do cooperativismo, pois garante sua identidade.
A educação é o quinto princípio do cooperativismo, cultivado desde os Pioneiros de Rochdale, com a intenção de “despertar a consciência de grupo para a participação solidária dos membros no empreendimento cooperativo” (Pinho, 2004, p. 178). Segundo o estudo empreendido por Schneider (2019, p. 166), a educação cooperativa visa à formação de uma cultura cooperativa, à progressiva superação da concorrência pela cooperação, à disposição para o trabalho em prol de um empreendimento coletivo e à intercooperação cooperativa. Destaca-se, nesse contexto, a importância da educação cooperativa por meio dos congressos da ACI, que ratifica, desde sua fundação, a relevância de disseminarem-se os princípios e as técnicas, tanto econômicas como democráticas, da cooperação (Pinho, 2004, p. 69).
Schneider (2019, p. 170) salienta diversas vantagens do investimento em educação
cooperativa, entre os quais podem ser citados:
Portanto, a educação cooperativista é um fundamento primordial, uma ferramenta de ação para que as cooperativas se mantenham alinhadas a seus valores e princípios como meios de transformação social.
De cooperado(a) à Cooperativista
Schneider (2012, p. 266) afirma que “Não se nasce cooperador, especialmente no contexto individualista e competitivo
em que vivemos. Não se mudam comportamentos sem mudar a mentalidade das pessoas. E uma mentalidade diferente só se adquire através de uma educação continuada e persistente”.
Desse modo, para o autor, o cooperado ingressará na cooperativa para atender a seus objetivos e interesses imediatos e individuais. No entanto, é dever da cooperativa promover, por meio da educação, a mudança de mentalidade, para que o associado adquira a verdadeira “cultura cooperativa”. E acrescentamos aqui, que o direito de participação do cooperado também é um dever, expressão na busca por compreender o modelo de negócio da sua cooperativa, interessando-se pelas suas operações, decisões e estratégia. Assim, o (a) cooperativista é o(a) cooperado(a) que assume, por meio da autorresponsabilidade e da ajuda mútua, uma filosofia de vida que preserva os valores e princípios do cooperativismo nas suas ações cotidianas. Este processo de compreensão do seu papel no mundo e na comunidade, como cooperativista, passa pela educação cooperativista.
Ainda na perspectiva do quinto princípio, “educação, formação e informação”, Schneider (2012, p. 267) também reforça a importância do desenvolvimento gerencial de uma cooperativa, que perpassa a formação técnica dos associados e colaboradores, mantendo, assim, a competitividade da empresa cooperativa diante das rápidas mudanças de mercado.
Segundo Frantz (1983, p. 144), a implantação de um sistema de comunicação e educação nas cooperativas do Rio Grande do Sul ganhou força na década de 1980, começando pelas cooperativas tritícolas da região noroeste do Estado. Desde então, muitas cooperativas passaram a organizar setores e/ou áreas responsáveis pela promoção da educação cooperativa, mantendo os associados mais próximos de sua cooperativa, bem como reduzindo os conflitos de interesse e tornando a educação cooperativista o fundamento da atividade cooperativa. Em síntese, a educação cooperativista, como cláusula pétrea precisa atender as três dimensões que o seu princípio mobiliza:
• Educação – construir juntos(as) uma perspectiva de sociedade permeada
por valores humanos que promovem vida digna para todos(as);
• Formação – investir em treinamento para garantir a sustentabilidade do
negócio da cooperativa em uma sociedade competitiva;
• Informação – garantir aos cooperados(as) a acesso à informação para
ampliar os conhecimentos sobre a cooperativa e o cooperativismo, a fim de
tomarmos decisões conscientes e coletivas.
Assim entendemos educação cooperativista, um processo permanente e contínuo, fundamentado na cooperação como processo social.
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